Não é verdade, é claro.
Não que seja mentira também. Trata-se apenas de um sonho que tive hoje a noite.
Lá ia eu em minha passagem diária pelo centro de São Paulo e de repente, não mais que de repente vejo uma máquina de refrigerante, não aquelas em que você poe a nota e ela te dá uma lata extremamente gelada, não era uma dessas, era uma igual às do McDonalds, Burger King e afins, uma soda fountain mesmo, com aquele rótulo azul claro do qual tenho absurdas saudades. Lá tinha Crystal Pepsi!!!
As Soda-Fountains, na minha opinião, fornecem a melhor Coca-Cola de todas. Nenhum de seus vários formatos, embalagens ou seja lá o que for, nem a clássica garrafinha de vidro, é tão boa. Trocaria a Coca de máquina e todas as outras por uma Pepsi, das normais mesmo. De lata. Prefiro mesmo. Não me critiquem, só compreendam.
Entro na lanchonete onde vi a tal máquina, um tanto quanto incrédulo, olho em volta, presto atenção nos detalhes.
Era um lugar tosco, com azulejos brancos já acinzentados, mesas e cadeiras tubulares vermelhas, em uma tentativa de emular um fast food típico, porém, muito mais esculhambada. Penso comigo mesmo: “Estava eu fumando crack no último mês? Se tem Crystal Pepsi aqui, nesse lugar nojento, deve ter até em Havana!”.
Chego no caixa para pegar a ficha, uma menina simpática, quase bonita, me atende, escondida atrás de um boné com aparência de engordurado e com uma rede prendendo os cabelos, tingidos de vermelho. Estendo uma nota de um real velha, gasta, com pinceladas de cinza e marrom. Parecia que tinha roubado do mendigo, mas era o troco da passagem de ônibus. Trocar uma nota que estava prestes a deixar de ser uma nota por um copo de Crystal Pepsi me parecia o melhor negócio do mundo. Nem Donald Trump, nem George Soros eram páreo para mim naquela hora. Eu estava fazendo a melhor aquisição do mundo. Fusões, ações debentures, tudo isso era bosta. As bolsas do mundo podiam despencar, países podiam quebrar, nada me impediria de pegar aquele copo. Estava radiante com a possibilidade de tomar o refrigerante mais memorável de todos os tempos novamente.
O rapaz perto da máquina de refrigerante me olhou incrédulo, com cara de quem não acreditava em uma Pepsi transparente. Colocou o copo no balcão à minha frente e esperou eu dar o primeiro gole, como quem aguardava uma reação terrível da minha parte.
Eram 7h35 da manhã no meu sonho. Saí do tal antro gastronômico com o copo de maior tamanho disponível sorrindo para as ruas, agradecendo aos céus a oportunidade de tomar aquele nectar novamente.
As pessoas me paravam na rua e perguntavam, como se eu fosse a personificação do apocalipse: “Refrigerante a essa hora?”, e eu respondia: “Isso não é um refrigerante, minha senhora. Isso é um dos grandes momentos de minha infância.”. Claro que não entendiam. Não precisavam entender. E de qualquer forma, meu café da manhã na rua é sempre uma Coca e uma coxinha, ou um misto-quente. Desta vez, no entanto, não comia nada. Degustava o drink perfeito. Aquilo era o amor em sua forma líquida.
O ano era 1993. Estava lá eu, com 8 anos, em um Brasil pré URV e pré plano real, um tanto quanto insipiente em importações, passeando com a familia em busca de alguma barganha, nas galerias e shoppings do centro de SP, quando, em uma loja de doces e outras coisas importadas, dou de cara com uma lata diferente, ostentando o nome que já me fascinava, mas aquilo era algo diferente. Senti que tinham feito algo exclusivamente para mim, para surpreender ao pequeno Ciro.
Para uma lata de refrigerante era algo um tanto quanto caro. Não tão caro quanto as minhas queridas pints de Guinness e Fullers de hoje em dia, que me ajudam a cair de bêbado sempre que me sobra algum dinheiro no bolso, mas era caro.
Erámos uma típica família que emergiu da classe trabalhadora de um dos bairros mais tradicionais de São Paulo, como um milhão de outras, certos bens de consumo estavam fora do nosso alcance, mas felizmente não era o caso da cintilante lata azul.
Quando cheguei em casa, coloquei minha compra na geladeira como se fosse uma jóia, algo valiosíssimo e esperei. Uma das esperas mais longas da minha vida.
Quando abri e despejei o seu conteúdo no copo, fiquei chocado. Era transparente de tudo. Tinha a aparência de uma água com gás. Nem água tônica, club soda, soda limonada ou qualquer outra bebida transparente gaseíficada tinha aquela aparência. Era lindo de se ver. Como uma Perrier, mas muito melhor, por que não era água.
Embriaguei-me com o líquido transparente. Era a melhor bebida que eu já tinha tomado.
Acho que a partir daí que surgiu o meu amor pelo estado líquido da matéria. Só pode ser.
Me tornei um alcoolatra por causa da Crystal Pepsi. Hoje me dou conta. Passei minha vida inteira procurando um líquido que me desse tanta satisfação quanto aquele primeiro copo.
Crack líquido, só pode ser.
Sempre tive uma ótima desculpa para meus excessos etílicos e só fui me dar conta agora! Meu deus…a Crystal Pepsi.
Depois daquela primeira lata, retornei à loja uma série de vezes, comprando cada vez mais e mais, até que um dia fui informado que haviam parado de vender.
Não sabia o que tinha acontecido. Se as vendas foram baixas e cancelaram as importações, o que não era possível, pois eu comprava aquilo loucamente. Fiquei estarrecido. Alguns anos depois descobri que a Pepsi tinha parado de fabricar devido às baixas vendas nos Estados Unidos. Oras…….Não sabiam de nada mesmo.
Se eu tivesse três oportunidades de voltar no tempo, apenas três, iria para Londres em 1964 na primeira e novamente para Londres, mas desta vez em 1977. Na terceira oportunidade eu iria para algum lugar nos Estados Unidos em 1992. Para presenciar o nascimento do drink do qual eu me tornei orfão tão cedo…
Claro…depois do meu sonho fui procurar algo sobre a Crystal Pepsi no Google. Achei dois abaixo-assinados, um deles que eu já havia assinado há um tempinho atrás e um outro novo.
Peço aos três visitantes deste blog que percam alguns minutos e me ajudem a realizar um sonho de infância!
http://www.gopetition.com/petitions/bring-back-crystal-pepsi/sign.html#se
http://www.petitiononline.com/crystalp/petition.htmlEternamente Grato,
Ciro, o orfão da Crystal Pepsi.
Tags: crystal pepsi
Agosto 27, 2008 às 3:44 pm |
Pois me identifiquei com seu pedido e assinei os abaixo-assinados, Ciro! Não porque eu goste da Crystal Pepsi, pois tenho um certo medo de coisas transparentes e que tem sabor. Mas porque também sou um órfão, da Grapette de garrafinha de vidro e do McRib, o melhor lanche que o McDonalds já teve.
BRING IT BACK, DO IT FOR CIRO!