Já sem lua mas ainda sem sol, abro a janela e contemplo o céu quase com a
mesma aparência de quando eu cheguei em casa no dia anterior, agora, logo
depois que meu despertador tomou coragem e fôlego o suficiente para me
acordar, gritando: “acorde, já são 6 horas” pelo pouco que eu pude
compreender e traduzir do simples idioma que os despertadores falam. Todos
os outros relógios do meu quarto marcavam 6 horas da manhã também, mas só
pensaram e permaneceram calados. O magnífico 6. Estes outros relógios pareciam gostar um pouco mais de mim, eu também gostava mais deles, principalmente de um em especial
que foi montado em um disco de vinil. No começo este fazia um “tic-tac” alto, quase
escandaloso, que não me deixava dormir. Agora dificilmente durmo sem o tal
barulho. Fagocitei o que me incomodava e virou parte de mim. O que não
consigo fagocitar, digerir, seja lá o que for, eu vomito. Nem sempre consigo
limpar os restos do tal vômito de imediato, mas logo mais logo menos eles
somem, o cheiro passa com o tempo e tudo fica bem.
Lavo o rosto na água gelada com a sensação de que jogo ácido em mim. Parece que metade da minha cara vai escorrer na pia, de tão gelada que está.
Espanto o sono como o Padre Merrin tira o macabro encosto da pequena Regan MacNeil, só que sem os jatos de vômito preto (era só o que me faltava, imagina minha
mãe me esfaqueando com uma cruz por sujar as toalhas brancas lá penduradas),
e volto para o meu quarto.
Os passarinhos lá fora começam a cantar ao nascer do sol e só tenho vontade de ter uma arma de chumbinho e de pedir a deus por um pouco de boa pontaria. Conformo-me de que a culpa não é do passarinho, do calendário romano, da empresa que me emprega ou de qualquer outra coisa. A culpa é minha por não ter aprendido nada com todos aqueles gibis do Zé Carioca que li em minha infância. Fui cismar de estudar e trabalhar e, conseqüentemente, me foder. OK, aceito isso feito homem e lá vou eu. Apesar
de eu não achar que há mais tempo de mudar, ler o Zé Carioca ainda me é assaz
divertido.
A roupa já está separada no cabide desde a noite anterior. Escondo as minhas
partes pendentes com uma certa velocidade.
Parece que estou todo dia com a mesma roupa, mas não estou. Fato é que todas se parecem muito. Sempre uma camisa listrada e uma calça escura.
Não me pergunte as cores, o daltonismo matinal me afeta terrivelmente. Não sei que
roupa estou pondo de manhã, durante o dia não tenho tempo de reparar nela e
quando volto para casa nem lembro que estou de roupa.
Gosto das listras. Das verticais nas camisas de botão e das horizontais nas camisas pólo, mesmo porquê, ao contrário ficaria ridículo. A convenção das listras é um pilar,
um baluarte da resistência nas vestimentas. Nunca mudarão!
Nos meus 56 passos que separam a porta de minha casa do ponto de ônibus,
colo em minha cabeça detalhes recortados e espalhados do final de semana que
passou. Dou risada sozinho do que me lembro enquanto paralelamente trabalho
em aceitar minha condição de trabalhador mal pago. Sempre tenho aquela
sensação de que poderia ter tomado alguns drinks a menos no final de semana
para não estar me sentindo tão mal na segunda, mas todo o meu desempenho
etílico é traçado de modo a esquecer a semana que passou, não cumpriria o
meu objetivo se bebesse menos. O que seria da minha saúde mental se eu não
sacrificasse a minha saúde física? Tudo tem um preço. Eu pago esse sem problemas.
Paro naquele que é o mais nefasto de todos os lugares da cidade, o ponto de ônibus, que, tal como alguma doença contagiosa, tem vários pontos, vários focos espalhados pela cidade.
Observo as bigas de aço e vidro, com muito mais cavalos do que qualquer centurião ou gladiador poderia sequer sonhar, ainda acho que desde a Roma antiga até hoje nós não evoluímos muito, a não ser no número de cavalos das bigas.
Paro, acendo o primeiro cigarro do dia e penso: “adoro o cheiro de tabaco pela manhã”. Claro, afinal, quem há de discordar que estamos no meio do apocalipse?
Em uma época em que estão tentando proibir os poucos prazeres que temos em todos os lugares, não perco uma oportunidade de acender um Gauloises.
Gauloises deveriam escapar dessa legislação. Quem eles pensam que são?
Entro no coletivo, sem lugar, sem espaço e sem ar. Se tivesse um chuveiro preso no teto eu juro que não me surpreenderia.
Os franceses chamam o orgasmo de “a pequena morte”, não consigo pensar em algo tão diametralmente oposto para designar a sensação de estar envolto em xexelentisse. A “grande, torturante, maldita, bizarra e dolorosa morte” me pareceria mais com uma noite de pinga com limão em algum bar sujo do centro do que com isso.
A necessidade me obriga. Afinal, necessito de algum dinheiro para suprir as minhas necessidades básicas do final da semana, durante a semana, ou seja lá onde ou quando for. O ciclo das necessidades nunca se fecha. Não perco muito tempo pensando nisso, senão largaria tudo e viraria um hippie de merda. Não. Quero manter meus vícios com o mínimo de conforto. Afinal, para que o capitalismo está aí se não para podermos sustentar nossos vícios e ter o mínimo de conforto? Comunistas maconheiros de classe média nunca pararam para pensar como seria isso, como sustentariam seus vícios típicos em Cuba, na China ou na grande falácia que era a União Soviética. Comprar drogas com rublos deve ser difícil. Fumar em uma praça, embaixo da estátua de algum líder comunista, daqueles que Stalin não apagou das fotos de seu book de Mister Nações Amigas Do Leste Europeu Fica Esperto Vamos Pegar Seus Países Também então…fora de cogitação.
Agüento aquela merda toda feito o homem que eu fui criado para ser. Típica cria da classe trabalhadora paulistana, e desço na Praça da Sé. O maior circo a céu aberto de São Paulo. Só não digo que é o maior do Brasil porque as noites da Lapa, no Rio, ganham disparado. Gosto mais do circo que está longe do que do que está perto. Lá as mulheres são mais bonitas, as pessoas são mais legais e sempre estou em um horário onde se é socialmente aceitável estar de porre.
As mesmas pessoas na fila, as mesmas pessoas no ônibus, o mesmo trajeto…tudo impressionantemente igual. Sinto-me em algum filme do tipo “O Feitiço do Tempo” ou algo assim, a diferença é que nunca estou tentando comer ninguém e a cada dia que passa estou mais perto da morte. Pelo menos pela última parte me sinto satisfeito. Da janela do bizarro meio de transporte observo as bigas, com todas as suas centenas de cavalos parados, cagando todo o feno e aveia que consomem em seus estábulos espalhados pela cidade. Como em um museu, vemos várias maravilhas do design moderno totalmente paradas para serem observadas. Claro, preferia estar dentro de uma dessas tais peças do tal museu do que quebrando o vidro da janela com a minha cabeça, enquanto o ônibus balança e eu durmo profundamente. Preferia estar ouvindo a minha música preferida sem babar na minha gravata, mas chego à conclusão de que dirigir é uma merda. Dormir me parece uma idéia melhor, mesmo que seja todo torto e acordando como se tivesse passado por uma lobotomia. Só a primeira das várias que sofro durante o dia.
Durmo profundamente, o mais profundo que se pode ir em 50 minutos.
É nessas horas que tenho os sonhos mais estranhos. Desta vez sonhei que estava no meio de uma selva, em uma clareira, uma área um pouco mais aberta, onde me atiravam pedras, mas não via nem quem as atiravam nem de onde vinham e como só poderia acontecer em um sonho, tinha um bar (sim, um BAR) e corri para lá para me refugiar. Abaixei heroicamente aquelas lonas que cobrem as laterais dos bares em dias de chuva e lá me abriguei. Nem meu subconsciente perde uma oportunidade de tirar um barato da minha cara. Nem ele nem ninguém, para falar a verdade. Não me importo muito, a vida é uma grande piada de qualquer forma.
Sou rudemente acordado pela bonitinha que pega ônibus comigo, que desce no mesmo ponto que eu.
Sempre entramos juntos no ônibus e descemos no mesmo lugar, mas nunca nem sequer dei um “Oi” para ela. Puxar assunto, conversa fiada, com desconhecidos é um negócio que me desgasta imensamente, ainda mais em uma manhã de segunda-feira.
Mal digo um obrigado para a tal desconhecida, que merecia realmente uma manifestação de agradecimento melhor da minha parte pela sua boa ação do dia, passo na frente do Hooters e me lembro que a vida pode ser boa, pelo menos na hora do almoço, atravesso a rua e entro no prédio do escritório.
Paro por aqui. Não vou continuar. Não quero fazer ninguém chorar.
Uma boa semana de merda para vocês!
Tags: segunda-feira
Agosto 26, 2008 às 4:17 am |
Agora você tem um motivo pra puxar conversa, cara!
como sempre, um ótimo texto reflexivo de auto-ajuda para nosas vidas hahaha
muito bom, cirus
AVE!